Ciência e música popular brasileira
Montagem sobre imagens da Wikimedia

O Chefe da Folia/ Pelo telefone manda me avisar/ Que com alegria/ Não se questione para se brincar/ (...)”. Já em 1916, na música “Pelo telefone”, um dos primeiros sambas gravados, os compositores Donga e Mauro de Almeida fazem referência a uma então nova tecnologia da comunicação, criação de Alexander Graham Bell – nada mais metalingüístico, se lembrarmos que o próprio Bell deu sua contribuição para o desenvolvimento da indústria fonográfica, com o seu Graphophone.

As relações entre ciência e música são muito profundas e têm suas raízes no próprio surgimento da ciência moderna. A música tem uma base física importante: são os sons afinados pela cultura que a constituem. Por outro lado, temas científicos constantemente servem de inspiração para as letras das canções. Na música popular brasileira, há inúmeros exemplos de expressões de temas e visões sobre ciência e tecnologia e seus impactos na vida moderna.

Apenas para citar um caso mais recente, na música “Livro”, de 1997, Caetano Veloso fala da radiação do corpo negro e da expansão do universo:

Tropeçavas nos astros desastrada/ Quase não tínhamos livros em casa

E a cidade não tinha livraria/ Mas os livros que em nossa vida entraram/ São como a radiação de um corpo negro/ Apontando pra a expansão do Universo/ Porque a frase, o conceito, o enredo, o verso/ (E, sem dúvida, sobretudo o verso)/ É o que pode lançar mundos no mundo.

Em “Cérebro Eletrônico”, de 1969, que Gilberto Gil gravou às pressas pouco antes de partir para exílio londrino, há o emprego de um termo muito usado em determinado período, e que hoje foi quase completamente substituído por ‘computador’:

O cérebro eletrônico faz tudo/ Faz quase tudo/ Faz quase tudo/ Mas ele é mudo

O cérebro eletrônico comanda/ Manda e desmanda/ Ele é quem manda/ Mas ele não anda/ (...)

Eu penso e posso/ Eu posso decidir/ Se vivo ou morro por que/ Porque sou vivo/ Vivo pra cachorro e sei/ Que cérebro eletrônico nenhum me dá socorro/ No meu caminho inevitável para a morte/ Porque sou vivo/ Sou muito vivo e sei

Que a morte é nosso impulso primitivo e sei/ Que cérebro eletrônico nenhum me dá socorro/ Com seus botões de ferro e seus/ Olhos de vidro.

Por vezes, a importância dos cientistas é lembrada, como no samba “Ciência e Arte”, de Cartola e Carlos Cachaça, composto em 1948 para a Mangueira. Nele, o físico co-descobridor da partícula que dá nome a este portal é pioneiramente homenageado:

Quero neste pobre enredo/ Reviver glorificando os homens teus/ Levá-los ao Panteon dos grandes imortais/ Pois merecem muito mais/ Não querendo levá-los ao cume da altura/ Cientistas tu tens e tens cultura/ E neste rude poema destes pobres vates/ Há sábios como Pedro Américo e Cesar Lattes.

No artigo “ Encanto científico: temas de ciência em letras da música popular brasileira”, o físico Ildeu de Castro Moreira e a jornalista Luisa Massarani fazem uma análise qualitativa do uso da temática científica nas letras de canções da música popular brasileira. Os autores agrupam as obras examinadas em categorias e citam vários exemplos que podem, inclusive, ser abordados em sala de aula.

Leia, “pela internet”, o artigo na íntegra, em PDF. Aproveite e navegue na seção de áudio do Pion para encontrar algumas músicas, em MP3, ligadas à Física. Afinal, novas tecnologias continuam surgindo e “ o chefe da polícia carioca avisa pelo celular/ Que lá na praça Onze tem um videopôquer para se jogar (...)”.

Encanto_cientifico-ciencia_e musica_popular.pdf 100,36 kB