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Declarações bombásticas do conde Rumford!
Publicado em: 1 Set 2009
Você sabia que, na Idade Antiga, Demócrito e Leucipo já propunham uma teoria dinâmica para o calor em termos do movimento de partículas da matéria comum? E que a teoria do calórico, no século XVIII, já fazia a distinção entre calor e temperatura e lançava as idéias do que viria a ser o calor específico? Acredita que a edição da Encyclopedia Britannica de 1860 – mais de meio século depois da realização do experimento de perfuração do canhão por conde Rumford –, em seu verbete heat ainda afirmava que a teoria dinâmica do calor era vaga e insatisfatória e que a visão fornecida pela teoria do calórico era ainda de aceitação geral? Pois que tal conhecer esses fatos – e muitos outros relacionados à história das idéias sobre o calor – por meio das palavras de um dos personagens mais importantes para o desenvolvimento dessa área da física, o próprio conde Rumford? Benjamin Thompson, ou Conde Rumford (1753 – 1814), que abalou as estruturas da teoria do calórico e ajudou a estabelecer o calor como uma forma de movimento, ganha voz pelas mãos do professor Alexandre Medeiros, da UFRPE, em uma divertida entrevista criada especialmente para a revista A Física na Escola. Apesar da narrativa ser, essencialmente, uma ficção, as informações históricas veiculadas sobre a vida e obra do conde Rumford estão apoiadas em fontes de reconhecido valor acadêmico, incluindo aí parte relevante de suas obras originais, incorporadas, principalmente, nas magníficas coletâneas organizadas por Sanborn Brown, seu maior biógrafo . Abaixo, um trecho da entrevista, publicada na Física na Escola, v. 10, n. 1, 2009: “ Rumford: O que importa é que foi trabalhando na perfuração de canhões na Baviera que eu vim a ter aquela minha intuição sobre a natureza do calor, a minha mais famosa contribuição à ciência. João: Como assim, a sua intuição? Eu pensei que você houvesse provado que o calórico não existia. Não foi exatamente isso que o experimento de perfuração dos canhões mostrou? Jonas: É, eu sempre li nos livros didáticos de física que você foi o grande adversário da teoria do calórico. E tenho ensinado que esse seu experimento provou que o calórico não existia. Rumford: A coisa é bem mais complexa, meu jovem. Para começar, eu nunca reivindiquei haver destruído a teoria do calórico. Para princípio de conversa, eu havia sido, até então, um fiel adepto da teoria do calórico. Havia, inclusive, contribuído para o seu desenvolvimento. Amélia: Essa história está ficando mesmo complicada. Não foi você quem estabeleceu pela primeira vez a conservação da energia? Não foi você, também, que estabeleceu que havia uma equivalência entre calor e energia? Rumford: Sim e não! De fato, eu gostaria de ter sido o primeiro a estabelecer uma tal equivalência, mas não fui tão longe assim. Isso é mais o fruto do trabalho posterior de indivíduos como o Mayer, o Joule e o Helmholtz. Mas isso foi bem após a minha morte. Vocês deviam conversar com eles a esse respeito. O que eu fiz foi lançar, com bastante vigor, a conjectura arrojada para a minha época, de que o calor deveria ser uma forma de movimento. Certamente, eu tinha minhas peças de evidência, mas nada que pudesse ser suficientemente convincente para os físicos da época. Entretanto, eu forneci várias pistas que pavimentaram o caminho para os trabalhos de muitos daqueles que me seguiram. Eu cheguei bem próximo de estabelecer o equivalente mecânico do calor, bem próximo mesmo. Eu fui um legítimo precursor do trabalho do Joule. Severino: Eu confesso que estou meio enrolado nessa sua história. Afinal, você era adepto da teoria do calor como um fluido, ou seja, do calórico, ou era adepto do calor como movimento de partículas? Explique isso direitinho. Rumford: Acho que nessa sua forma de falar já está implícita uma confusão que os livros didáticos de vocês apenas contribuem para perpetuar. Eu não creio que nós devêssemos colocar esse tipo de oposição entre uma teoria de partículas para o calor e a teoria do calórico. Amélia: Mas, por que não? O calórico não era suposto ser uma substância contínua, uma espécie de fluido? E a temperatura não era vista como a quantidade de calórico presente nos corpos? Rumford: Não! Absolutamente, não! Como disse, antes, a coisa é mais complexa. Acho que para compreenderem melhor a minha contribuição, para perceberem como vim a auxiliar no lançamento das bases do que depois frutificaria como a nova e poderosa ciência da termodinâmica, é necessário que compreendam um pouco mais a própria teoria do calórico e as suas concorrentes. Severino: Cara, eu sempre soube que você havia derrubado a teoria do calórico. Agora você me vem posar também, como traidor dessa causa? Rumford: Não é bem assim, meu caro senhor Severino. Deixe-me relembrar um pouco da história das primeiras teorias sobre o calor para que você possa compreender melhor as minhas idéias sobre o calórico e a minha interpretação do famoso experimento de escavação de canhões. Zé Roberto: Pois, comece bem do início”. Ficou curioso? Então leia, na íntegra, a “Entrevista com o conde Rumford: da teoria do calórico ao calor como uma forma de movimento”. |