Depoimentos

Artistas e Mario Schenberg

Trazemos citações dos depoimentos, publicados em 1987, de Lygia Clark (26) e de Mario Gruber (27) para testemunhar a amplitude das características pessoais de Mario Schenberg e a intensidade com que podia tocar as pessoas. Muitos outros depoimentos estão nas publicações.

Mario Schenberg foi uma das personalidades mais completas e maravilhosas com quem convivi. ... A influência sobre minha personalidade foi enorme. ... Nem sei o que teria realizado na minha obra sem conhecê-lo. ... Há muito tempo nos mantemos à distância, mas quando nos vemos há uma espécie de permanência de tudo que passamos juntos e enquanto estiver viva sempre o guardarei dentro das minhas profundezas como um tesouro.” Lygia Clark.

Mario é uma pessoa muito importante para mim. Não só pelo seu interesse no meu trabalho, como no trabalho de todos nós, pelo seu interesse no movimento cultural brasileiro, tão afetado pela situação do país... O Mario é um homem que lutou bastante para dar a sua contribuição na solução dos grandes problemas nacionais. É conhecida sua atuação como parlamentar e foi, inclusive, cassado. Teve atuação brilhante na defesa de nossas riquezas naturais. Naquela época era a questão do petróleo, do Projeto Carnaúba. Eu sou testemunha de que ele sofreu pressões, especialmente num grave período de nossa história, mas sempre sendo um exemplo de coragem e dignidade. Pelas atitudes que assumiu e que assume hoje, acho que o Mario é um ponto de referência na vida intelectual brasileira. É um privilégio cruzar com ele e ver como isso se troca em miúdos, no dia a dia, conviver com ele e perceber a verdadeira dimensão do grande amigo. Mario é uma pessoa bastante afetuosa, se bem que muitas vezes difícil, temperamental, com muito caráter, com muita vitalidade.” Mario Gruber.

Mario Schenberg escreveu para Francisco Rebolo Gonsales, em 1973 (28):

... A arte tem uma importância prospectiva fundamental. Ela nos ajuda a descobrir o que começa a ser necessidade premente para a humanidade em cada etapa nova de sua evolução. Hoje, temos necessidade de uma nova aproximação com a Natureza, da qual viemos nos afastando há séculos. O ciclo racionalista e tecnologista, iniciado durante a Renascença, chegou ao seu fim com a sociedade de consumo, na sua mortífera robotização e poluição. É questão de sobrevivência, não meramente de estética, o reencontro do Homem com a Natureza.

São muitos os caminhos deste encontro. Talvez o mais fundamental seja o da convivência poética das coisas mais simples. Pode parecer simplório, mas é o que leva às coisas mais básicas e, portanto, mais altas.

Toda a obra de Rebolo gira em torno desse encontro do Homem com a Natureza, na vivência e fruição espontâneas das coisas simples da vida e do Mundo.

... Devemos a Rebolo toda uma variedade impressionante de apreensões artísticas do tempo-vida, nas suas melhores paisagens, naturezas-mortas (ou melhor, vivas) e nos seus retratos e figuras humanas. A significação dessas obras irá sendo compreendida cada vez melhor, na medida que for desaparecendo a idéia superficial de que a obra de arte é essencialmente uma estrutura formal, em vez de um instrumento de comunicação de verdades fundamentais para a existência humana".

Mario Schenberg e seu trabalho científico: depoimentos e cartas

Há cartas e depoimentos ricos de suas interações em física, de sua vida científica, para a percepção de sua personalidade no trabalho científico, amigável, de grande interação, de responsabilidade pelo desenvolvimento da física no Brasil, que interessarão a físicos e a historiadores. Não foi realizada uma busca exaustiva de documentos em outros arquivos. Apresentaremos citações que ilustram momentos de troca sobre seus temas científicos e sobre suas situações de trabalho.

Seus primeiros trabalhos citados nas cartas a Luiz Freire (29), a quem se dirige como “mestre e amigo”, já mostram a originalidade e a ousadia com que, muito jovem, se lança à carreira de pesquisador, reconhecidamente influenciado por Wataghin e Occhialini. Parece estar esboçado, nessas cartas, o caminho para seus mais de quarenta anos de pesquisa. Apresentamos, a seguir, algumas dessas cartas, escritas entre 1933 e 1939.

São Paulo, 6 de novembro de 1936

Caro Mestre;

Aproveito a oportunidade da remessa dos trabalhos do prof. Wataghin para uma palestra rápida.

O trabalho sobre a interação dos elétrons, de que lhe falei no Rio, já está impresso, por estas horas. Sairá no Nuovo Cimento, já fiz a correção das provas e espero receber os extratos em Dezembro. Depois da conclusão do cálculo da interação comecei a trabalhar numa teoria quântica da gravitação, contava chegar a uma teoria unitária baseada nos neutrinos. O curso das idéias conduziu a um resultado diferente. Conjuntamente com o prof. Wataghin elaboramos uma teoria que generaliza a atual Mecânica Quântica, introduzindo um limite inferior dos intervalos espaço-temporais discerníveis. A 21 de Outubro enviamos uma nota aos Lincei e uma carta à Physical Review. Neste trabalho discutimos as modificações dos operadores representativos das coordenadas espaço-temporais e das regras de comutação de Heisenberg. Numa segunda nota examinaremos as equações de Schrödinger-Dirac e a teoria do campo eletromagnético quantizado; a teoria conduz ao valor correto da massa do elétron, tornando igual ao raio clássico do elétron, eliminando, de um modo simples, uma das grandes dificuldades das atuais teorias quânticas. Contamos numa terceira nota construir uma teoria quântica da gravitação, baseada em princípios diferentes da teoria do campo eletromagnético.

Aqui na secção de Physica há um rapaz de promissoras qualidades, para o ano será nomeado assistente de Mecânica. Eu serei assistente de Physica Theorica. Parece que em poucos anos haverá um centro importante de estudos físicos no Brasil.

Passarei as próximas ferias no Rio e em Agosto irei tirar um curso de aperfeiçoamento na Europa.

Estas são as novidades. O prof. Wataghin seguirá no dia 20, de modo que não passará por Recife.

Com um abraço do discípulo

M. Schenberg

Apesar de grande interação com Gleb Wataghin, não assinaram artigos juntos. Fizeram sempre referência à colaboração recíproca em seus trabalhos publicados, nos anos 30. Os primeiros trabalhos de Mario Schenberg, aos vinte anos de idade e pouco mais, denotam interações intensas com Wataghin a quem registra agradecimentos pela indicação do problema, pelas sugestões e discussões. Mario Schönberg também é citado em artigos de Wataghin (30), às vezes em Referências, às vezes dentro do próprio texto. Por exemplo, no artigo “On Explosion Showers”, G. Wataghin, no Physical Review de novembro de 1939, na referência 2, lemos : “Following a remark of Mario Schönberg, the operator exp /Kv 2 applied to a function gives in the corresponding Fourier development a cut-off factor”. Em “Sugli sciami a esplosione”, em La Ricerca Scientifica, dezembro de 1939, página 177, lê-se no rodapé, referência 3: “Ci sembra assai notevole l´observazione del Dr. Mario Schönberg, qui utilizzata, che operatori e/k determinano um “taglio” nello specttro di alte frequenze.” U.S.P novembre 1939 .

Em outra carta a Luiz Freire, escreve sobre seus trabalhos iniciais, sobre a consulta de Wataghin a Heisenberg.

Rio de Janeiro, 21/ VI/ 1937.

Caro Mestre

Peço-lhe perdoar-me não ter respondido à sua carta, também não eram realmente notáveis os planos feitos.

Desde fins do ano passado há separação dos cursos entre a Faculdade e a Politécnica, de modo que não podemos mais contar com os cargos da Politécnica.

O começo do ano não me foi muito propicio. Tive serias dificuldades na Faculdade e por pouco não pedi demissão. O Wataghin discutiu com o Heisenberg a minha idéia sobre a limitação da teoria da relatividade a comprimentos maiores do diâmetro do elétron. Heisenberg achou a idéia prematura, o material relativo aos raios cósmicos não permite ainda analisar nitidamente a origem dos “showers” ou gerbas. Se o meu ponto de vista for correto a produção do “shower” deve ser um efeito universal, característico das grandes velocidades e dualisticamente dos pequenos comprimentos (fará) que a medida dum pequeno comprimento reduz-se a um bombardeio por partículas velozes e havendo variação do número de partículas torna-se incerto o comprimento. Resolvi aguardar maiores (previsões) experimentais antes de publicar os trabalhos sobre o assunto. Recebi as separatas do trabalho sobre a formula de Möeller.

Uma vez resolvida minha situação na Faculdade, iniciei um curso de Calculo das Probabilidades. Desse estudo obtive certas sugestões e escrevi duas notas sobre o (x) de Dirac, na primeira mostro a possibilidade de eliminar o de Dirac e suas derivadas utilizando a integral de Stieltjes. Na representação do operador unidade figura uma única quadratura de Stieltjes, mas na representação da derivada figuram duas. Na segunda nota mostro que qualquer derivada pode ser representada por uma dupla quadratura de Stieltjes e que é impossível obter uma representação por meio de uma única integração.

Fiz também um estudo comparativo entre a teoria das leis de probabilidades e a teoria do oscilador harmônico, mostrando que as autofunções de ordem superior geram leis de probabilidade com vários valores notáveis e com dispersão maior que a lei de Gauss. Todas as leis oriundas do oscilador harmônico são simétricas, o oscilador anharmônico induz a leis assimétricas.

... ...

Esperamos até o fim do ano contar com a presença de Occhialini, o experimentador que, juntamente com Blackett, fez as experiências sobre o elétron positivo. O Occhialini dirigirá o laboratório da Faculdade. O laboratório receberá por esses dias 600 miligramas de radio e serão iniciadas experimentações de Física Nuclear. Estão estudando minuciosamente as questões referentes ao núcleo atômico de modo a conjugar as pesquisas teóricas com as atividades do laboratório.

Tenho o prazer de lhe enviar anexa uma separata de meu primeiro trabalho.

Com meus votos de felicidade envio-lhe minhas saudações respeitosas.

Do discípulo e amigo

Mario Schenberg

Quando Mario Schenberg viajou para a Europa em 1938, realizou pesquisas em Roma e agradece pelo interesse e pelas discussões, a Fermi, Bernardini e Ferreti. Teve contatos próximos, em Paris, em seminários e de amizade, com Paul Langevin, Frederic Joliot, Bruno Pontecorvo, Alexandre Proca e outros, com W. Pauli, em Zurich, e outros, em seminários e conversas de amizade e afinidade de visão de mundo. Segundo seus depoimentos os encontros com Pauli tiveram grande repercussão em seu pensamento em física e alimentaram seu interesse pela filosofia oriental. Apresenta agradecimentos a Pauli por discussões, resultados e idéias em vários de seus artigos. Em Paris esteve com pintores brasileiros, Di Cavalcanti e Noemia Mourão e, estudando a história do cinema, com Paulo Emilio Salles Gomes e Plínio Sussekind da Rocha. (31)

Ao estourar a 2ª. Guerra Mundial, em 1939, voltou ao Brasil bastante enriquecido com os contatos com físicos internacionais. Aqui iniciou profícua interação com Occhialini pesquisando as componentes ultra-leves da radiação cósmica. Occhialini apresentou em co-autoria com Schenberg, no 1º. Simpósio Internacional realizado na Academia Brasileira de Ciências, em 1941, síntese de trabalhos anteriores sobre radiação cósmica – Schenberg gostava de mencionar que fizera trabalhos experimentais com Occhialini. Mario Schenberg não estava presente nesse simpósio, pois seguira para os Estados Unidos.

A repercussão dos trabalhos da equipe de Wataghin trouxera a São Paulo, no início dos anos 1940, entre outros, George Gamow e Arthur H. Compton, este já prêmio Nobel, que realizou, aqui, experiências em raios cósmicos com balões. Schenberg assistiu seminários e estabeleceu vínculos com Gamow, já começando uma colaboração que continuou nos Estados Unidos, na George Washington University.

Nessa estadia nos Estados Unidos, como bolsista da Fundação Guggenheim fez trabalhos fundamentais em astrofísica sobre a origem e evolução das estrelas, na relação da física de reações nucleares e partículas elementares com Gamow, em Washington, e com S. Chandrasekhar, depois prêmio Nobel, em Princeton e no observatório de Yerkes, em Chicago. Esses trabalhos estão hoje mencionados em livros didáticos de Astrofísica. Em depoimento na Universidade de Chicago, em 1989 (32), Chandrasekhar é claro em dar responsabilidade a Schönberg:

... (Mario Schönberg) veio a Chicago e começou a trabalhar comigo... Eu tinha escrito um livro em 1939 e esse trabalho foi, por assim dizer, sobras daqueles dias... Fez o trabalho muito bem, trabalho que, mais tarde, tornou-se bastante conhecido ... Ele tinha trabalhado com Gamow em evolução estelar, já tinham feito o trabalho sobre o processo Urca pelo qual os neutrinos carregam energia para fora das estrelas. Eu não era entusiasmado pela maneira não rigorosa como que estavam trabalhando e pela hipótese fundamental assumida por Gamow e muitas outras pessoas naquela época que, na evolução das estrelas, todo hidrogênio é queimado. Sabia que aquilo não poderia ser verdadeiro. De fato, publiquei um trabalho em que demonstrei que os núcleos isotérmicos não podem se expandir. Quando Mario veio trabalhar eu tinha esse problema em mente. Mas meu tempo estava dividido em conseqüência do trabalho no esforço de guerra. .... Mario ficou em Chicago por seis meses, em que eu estava apenas parcialmente em Yerkes e não pude vê-lo muito. Mesmo assim ele continuou e terminou o trabalho ... o último trabalho que fiz nessa área. Ao final desse período de seis meses ele partiu. Essa foi a duração de nossa colaboração. ... De fato, esse trabalho veio a se tornar o ponto de partida de todos os trabalhos posteriores em evolução estelar.”

Nessa estadia nos Estados Unidos, Schenberg destaca suas experiências em artes plásticas, fotografia e cinema, e também os conhecimentos adquiridos sobre a arte e filosofia orientais. Fez interessantes ensaios fotográficos, uma de suas manifestações no campo das artes visuais. Chegou a fazer uma exposição no Laboratório de Yerkes (33). Por intermédio da escultora e desenhista brasileira Teresa D´Amico, com quem conviveu nos Estados Unidos, conheceu artistas importantes (34).

Mario Schenberg e Leite Lopes

Escreveu com Leite Lopes, em 1944, publicado em 1945, o primeiro de uma série de artigos sobre uma teoria do elétron e dos potenciais avançado e retardado, a partir da teoria de Dirac. Suas cartas a Leite (várias foram publicadas em artigos de Leite Lopes, e estão em seu arquivo pessoal) mostram sua disposição nesses trabalhos e revelam uma relação próxima, de confiança e amizade, e grande afinidade na pesquisa. Publicamos uma delas:

São Paulo, 14/XII/946

Caro Leite

Estou muito interessado em conhecer melhor os seus cálculos sobre a self-energy. Desde setembro venho estudando eletrodinâmica quântica e obtive alguns resultados interessantes.

Concordo com o que você diz sobre a não eliminação da self-energy transversal pela simples introdução de ondas retardadas e avançadas, com a quantização simétrica e independente dos dois campos. Mas na minha nota na Physical Review os dois campos não foram tratados simetricamente. Está dito explicitamente que nos elementos de matriz da interação avançada, as freqüências são tomadas negativas, aliás, isso é equivalente ao método de Dirac sob a forma de Pauli.

Há uma incoerência na minha nota da Physical Review: a energia do campo de radiação torna-se positiva quando tomamos operadores anti-hermitianos para (E adv , Hadv), de modo que não há, realmente, fótons negativos, se bem que a self-energia desapareça (a transversal). Para eliminar a self-energia coulombiana e sua associada dinâmica é preciso, antes da quantização eliminar as ondas longitudinais (método de Fermi) e trabalhar sempre no sistema de repouso do corpúsculo. Senão pode-se utilizar o -process. Em conjunto a cousa é pouco satisfatória. É porém curioso que se possa evitar a introdução de fótons negativos, mas não a de probabilidades negativas ligadas aos operadores anti-hermitianos.

Não há dificuldade em introduzir o campo de Wentzel por meio de um formalismo hermitiano. Basta introduzir separadamente um tempo do campo, como no trabalho original de Dirac, Fock e Podolsky. Aliás, eu consegui compreender claramente as bases físicas desse método, considerando as diferenças entre ações à distância e ações através do campo.

Um dos resultados mais interessantes que encontrei foi a possibilidade de eliminar as divergências sem introduzir operadores anti-hermitianos. Pode-se quantizar o campo de modo tal que os operadores de emissão e absorção não comutem, utilizando os dois campos que introduzi. A parte da hamiltoniana do campo correspondente a cada grau de liberdade é um operador análogo a uma componente do momento angular. Há possibilidades inteiramente novas que ainda não explorei bem. Creio que se pode obter uma teoria satisfatória do “damping”e justificar o método de Heitler e Peng.

Não vale a pena alongar mais a carta porque logo poderemos conversar.

Recomendações a sua senhora e aos amigos.

Um abraço do

Mario

Mario Schenberg e R. Paul : Métodos de Teoria de Campos em Físico-Química

Sua formulação da teoria quântica de campos influenciou estudos em físico-química. Ricardo Ferreira (35) relaciona os trabalhos de Schönberg sobre teoria dos campos com o cálculo do potencial químico de Gibbs dos átomos e moléculas em termos da função de Green. Cita R. Paul, da Universidade de Calgary, Canadá, que publicou, em 1982, o livro Field Theoretical Methods in Chemical Physics, em cujo prefácio se lê:

This book has been the result of much thought on my part over a period of about ten years during which I have laboured to discover methods which can be adapted to suit a wide variety of problems. In my opinion the work of Schönberg, in his three extensive papers, is the ideal starting point. In Chapter I, I have introduced Schönberg´s general principle of second quantization, using as a reference the diffusion equation.” …

The underlying tenets of statistical thermodynamics may be readily obtained from Schönberg´s prescription and this aspect is explored in Chapter III. As a consequence of the work described in Chapter III it is found that statistical mechanical averages can be expressed in terms of what are defined as imaginary “time” Green´s functions and the emphasis is thereby shifted to a computation of these quantities.”

Correspondência de Bruxelas: 1948-1953

De 1948 a 1953, Schenberg realiza um período fértil, no Laboratório de Física Nuclear da Universidade de Bruxelas. Nessa estadia manteve contatos com Ilya Prigogine, S. R. de Groot, Leon Rosenfeld e outros físicos de destaque com quem conservou ligações duradouras. Há cartas suas em vários arquivos, que dão o teor de sua troca de idéias com físicos destacados. Essas cartas mostram, também, as dificuldades que teve com a Reitoria da Universidade em seu cargo no Departamento de Física, para pedir afastamento para viajar, ao ter seu diploma de deputado cassado. Além disso, conta sobre as novidades da Física com que tinha contato e sobre seu trabalho.

Mario Schenberg para Wataghin e Marcello Damy

Bruxelas, 22/1/948

Caros Wataghin e Marcelo

Escrevo simultaneamente aos dois a fim de evitar o perigo de não encontrar um dos dois.

Junto vai uma carta do reitor da Universidade de Bruxelas me convidando para dar um curso de dois meses. Minha licença termina no dia 22 de Novembro e eu preciso de uma autorização do reitor para poder emendar a licença com as férias Creio que com esse convite concederá a autorização para eu permanecer aqui com vencimentos.

Há uns quinze dias comecei a trabalhar com afinco. Estou refazendo os cálculos relativistas do efeito Lamb-Rutherford com o meu formalismo. Em aproximação não relativista tudo vai bem, o que indica que na aproximação relativista também obterei o efeito que é devido a energias de fótons virtuais mc2. Um grande abraço do

Mario”

Bruxelas, 12/10/48

Caro Wataghin

Desculpe minha demora em lhe escrever. Há muito que quis fazê-lo, mas a preguiça foi mais forte. Há dias escrevi uma carta ao Marcelo contando algumas novidades, não vou repeti-las. Há alguma coisa que lhe interessa particularmente: experiências feitas em Manchester e Dublin indicam que há partículas penetrantes nos showers ordinários, ou melhor, que as partículas do grupo mole podem gerar secundários penetrantes no material absorvente segundo a lei Ze 2. Os showers penetrantes conteriam tanto estas partículas como mesons. Janossy supõe que são os mesons dos franceses e que a massa seria 3 vezes maior que a do elétron. Auger criticou as suas conclusões aqui no Congresso Solvay, alegando a produção local de partículas penetrantes no chumbo. Segundo Janossy esses elétrons pesados teriam vida media curtíssima, porque pondo um teto de chumbo a uma pequena distância o número de penetrantes varia muito.

Dirac disse no Congresso Solvay que fora capaz de achar uma solução exata da equação de Schrödinger do elétron livre e seu campo de radiação. Parece que usou o lambda process. Na solução exata não há mais divergências, mas em compensação, a maior parte dos termos corresponde a movimentos self-acelerados do tipo “run-away”,

isto é, com velocidade tendendo para c . Oppenheimer e Bohr acham que não se deve usar o lambda process.

Eu tenho feito pouca cousa. Achei um modo simples de generalizar o método de Tomonaga e Schwinger para casos em que não existem equações de Tomonaga. Com o

método que uso também deve ser possível calcular as aproximações superiores, o que parece quase impossível com as equações de contato de Schwinger. Agora estou procurando combinar a teoria dos holes com o meu formalismo do campo de radiação e das ações à distância para ver se consigo encontrar a fórmula do efeito Lamb-Rutherford. Quando tiver terminado este cálculo irei discutir com o pessoal. Ficarei aqui em Bruxelas até a vinda de minha família, provavelmente até o fim do mês. Em novembro devo voltar a Bruxelas para dar um curso de dois meses sobre teoria do campo. Espero passar o mês de dezembro em Zurich. Depois de terminado o curso irei para a Itália ou a Inglaterra. Rosenfeld e Blackett me convidaram para ir a Manchester; Ferretti e Amaldi vão ver se conseguem um convite oficial para Roma.

Recomendações a sua família e a todos no laboratório.

Um grande abraço do Mario”

Mario Schenberg e Abrahão de Moraes

As cartas trocadas com Abrahão de Moraes, durante essa ausência, que espelham grande afinidade pela condução das questões do Departamento de Física e amizade recíproca, são importante relato sobre pesquisas e sobre o ambiente de pesquisa em São Paulo, no momento em que Wataghin deixou São Paulo para assumir a cátedra em Turim. Transcrevemos trechos e algumas das cartas:

Bruxelas, 30 de janeiro de 1950

Caro Abrão

Fiquei surpreendido com a decisão de Wataghin. A negativa dele refere-se unicamente à sua volta imediata ou será uma rescisão de contrato com a Faculdade? Dos nomes que você mencionou os de Rosenfeld e Ferretti são os melhores. Duvido que Rosenfeld possa aceitar. De qualquer modo eu não me sinto com jeito para lhe propor nada depois do caso de Paulo Sergio (36) . Para obter uma resposta rápida de Ferretti é melhor escrever ao Paulo Leal Ferreira que está em Roma. Parece-me vantajoso que o convite seja feito diretamente pela faculdade para dar maior seriedade à coisa.

...

Minha volta a São Paulo representaria um grave prejuízo para mim. Alem do mais não vejo porque deva passar por cima da afronta que me foi feita e dos prejuízos materiais, e mesmo morais, que a Reitoria da Universidade me causou. A Congregação da Faculdade já me deu uma prova de apreciação em 1949. Contudo a Reitoria não tomou em consideração o apelo da Faculdade. Duvido muito da possibilidade de ter uma atuação profícua, continuando a ser o alvo de discriminação por parte da Reitoria. Não poderia cogitar de voltar agora, sem que a Reitoria reconsiderasse a sua atitude em 1949 e me indenizasse pelos prejuízos que sofri. O pretexto do Lineu foi o mais absurdo possível. Eu saíra do país em gozo de licença prêmio. Não estando em exercício não precisava de autorização do Ademar. Quiseram me tocar para fora da Faculdade. Se a Reitoria atual desejar a minha volta, deverá dar uma manifestação de boa vontade e apreço. ...

...

O Occhialini foi convidado pelo Lattes para passar um ano no Rio, em missão da Unesco. É possível que ele aceite, se o Cosyns concordar. A estadia de Occhialini no Brasil seria também vantajosa para o Departamento.

Recomendações a Cecy e a todo o pessoal do Departamento. Um abraço do sempre seu

Mario

Bruxelas, 12 de agosto de 1950

Caro Abrão

Gostei da rapidez com que respondeu. Perde-se até a vontade de escrever

para o Brasil, pela falta ou demora incrível em receber resposta.

Estou de acordo com a passagem do Schutzer para assistente da Física

Teórica. Seria preciso lhe dar tempo integral, como ao Tiomno. Foi uma pena o Saraiva ter saído. Continua o êxodo do pessoal?

O Wataghin não pensa em voltar em 1952? Muita gente anda com vontade de sair

da Europa, com medo de guerra. Talvez agora a paura seja menor do que há um mês atrás. Se Wataghin não quiser voltar poderão convidar algum italiano, Ferretti ou Puppi, ou então Dallaporta. Aliás o próprio Wataghin talvez queira se ocupar disso. Há também o Gian Carlo Wick, que está em alguma universidade americana. Seria bom saber se Fermi não terá algum ano sabático em que pudesse ir ao Brasil. Aqui na Europa, além dos italianos, poderão se entender com Møller de Copenhague, Frölich de Liverpool e Kemmer de Cambridge. Os ingleses poderiam ser mandados pelo British Council, conservando os

vencimentos ingleses. Isso seria certamente um incentivo.

Os meus planos pessoais ainda estão fluidos. Foi renovado o meu contrato de professor agregé por mais um ano (até outubro de 1951). Estou gostando da Europa,

sobretudo agora que estou mais ou menos bem instalado. Trabalhei muito na Física Teórica este ano. Conclui agora um trabalho sobre a teoria da ionização. Obtive alguns resultados importantes que lançam uma luz nova sobre uma série de discrepâncias entre os resultados experimentais e os antigos resultados teóricos. Tive que interromper uns cálculos que vinha fazendo em eletrodinâmica, mas vou retomá-los. Preciso também de publicar duas memórias sobre o cálculo de perturbações, trabalho que fiz em 1949, mas que precisa de alguns complementos.

O Leal Ferreira está aqui com a Palmira, há dois meses. Ele está fazendo um trabalho sobre eletrodinâmica. Palmira trabalha com o Occhialini. Eles irão para a Inglaterra ou Suissa em outubro.

Não tenho muita vontade de voltar para São Paulo. Fui tratado de modo inominável pelo Lineu e o Reale nada fez para melhorar a situação. Não sou muito dado a engolir desaforos. Ficar em São Paulo é coisa pouco interessante do ponto de vista científico e ser desconsiderado por reitores não é incentivo. Tenho o dever de contribuir para o desenvolvimento da ciência no Brasil e espero ter oportunidade de fazê-lo quando os sacrifícios que fiz e farei forem melhor apreciados.

Espero que o ambiente de intrigas e desconfiança que encontrei em 1949 tenha se esclarecido. Sem o restabelecimento de um clima de satisfação geral e entusiasmo, o Departamento regredirá fatalmente. Parece que ainda há alguma coisa a ajustar. Pelo menos é o que me faz crer o tom de desânimo da última carta que recebi do Paulo Sergio e o fato do Saraiva ter saído. Espero muito do seu equilíbrio, de sua serenidade e do seu bom senso na direção do laboratório. É também preciso que a direção da Faculdade e a Reitoria tenham pelo Departamento o mesmo carinho de outros tempos. É uma pena que o melhor departamento científico da Faculdade estagne, quando poderia brilhar cada vez mais. Procure ver bem o que há e não hesite em tomar medidas enérgicas, quando necessárias. Pelo que soube a parte didática anda muito descurada. Isso não pode continuar.

O Paulo Sergio é um dos melhores jovens que tivemos. Como capacidade não fica devendo a ninguém do Departamento. Ele estava decidido a demitir-se e ir para a Argentina. Deve ser comissionado e vir para a Europa, aprender e adquirir maior experiência científica. Ele já trabalhou bastante com o Beck, agora será preferível que trabalhe com outros professores. É conveniente que um jovem cientista percorra vários centros, se ocupe de diversos tipos de problemas e conheça umas tantas orientações científicas diferentes. Junto vai uma carta para o Eurípides.

Escreva sempre e mande amplas notícias. Tenho o maior interesse por tudo que se relaciona com o Departamento.

Um grande abraço do

Mario

25 de setembro de 1950:

Caro Abrão

Acabo de receber a resposta de Heitler aceitando a ida de Paulo Sergio para Zurich. Espero que não haverá mais dificuldades. Dentro de alguns dias receberei a do Rosenfeld, mas uma já basta.

O Paulo Leal e a Palmira vão para Roma dentro de alguns dias.

Andei muito pregado mas já descansei e voltei ao guatambu.

Um abraço do sempre seu

De Abrahão para Mario, cópia carbono de carta datilografada em papel da Faculdade de Filosofia

São Paulo, 18 de dezembro de 1950

Caro Mário

Há alguns dias escrevi-lhe uma carta em que mencionei o caso do preenchimento da cadeira de Física Teórica. Hoje lamento informar que o Prof. Wataghin não pode aceitar. A situação ainda ficou pior porque segundo as coisas estão a indicar, nem mais poderemos contar com o Wigner. O Sala recebeu dele, ontem, uma carta em que ele diz que terá que permanecer, provavelmente nos E.E.U.U., em virtude da presente situação. Discutimos a questão com Tiomno e Schutzer. Pensamos em diversos nomes, Rosenfeld, Ferreti, Wick, Bopp, Flugge, Moliére, Beck. Submeto essa lista à sua apreciação para cortar ou sugerir mais nomes. Ao mesmo tempo quero pedir sua cooperação para resolver o assunto. Se fosse possível gostaria que você sondasse aí sem compromisso ainda, o Rosenfeld, Bopp e Moliere, ou eventualmente alguém mais que você mesmo ache interessante sobre o interesse dessas pessoas por um contrato de dois anos ou três. Desejaria que você pensasse com carinho na situação dos moços que trabalham nos raios cósmicos que gostariam muito se pudessem contar com alguma orientação do próprio professor de Física Teórica. Segundo informações obtidas por intermédio do Lattes, Moliére deseja vir ao Brasil. ...

... Tiomno voltou muito entusiasmado dos E.E.U.U.. Vai fazer bom trabalho aqui. Fiquei excelentemente impressionado com ele.

O Schützer fez o doutoramento e saiu-se muito bem. O Leite Lopes na argüição da tese “Singularidades da Matriz S e Causalidade” o apertou bastante (cerca de 70 minutos), mas ele se defendeu muito bem.

O prédio do van de Graaf está sendo construído com razoável rapidez e o Sala acredita que ficará pronto dentro de uns três meses devendo ficar completamente montado lá pelo fim de 1951.

A situação interna no laboratório tem piorado um pouco nos últimos meses. Se você voltasse, e eu gostaria que isso acontecesse breve, creio que as coisas melhorariam. Aliás você receberá um apelo nesse sentido por parte da Congregação da Faculdade.

...

Queira aceitar um forte abraço de seu amigo

Recomendações à família.

Carta de Mario Schenberg a L. Rosenfeld

Numa carta a Leon Rosenfeld, de 5 de abril de 1949 (37), Schenberg discute resultados dos primeiros trabalhos com o grupo experimental do laboratório do Centro de Bruxelas, a detecção, em emulsões fotográficas, de uma “très belle étoile”, com 44 pontas .

A carta a Leon Rosenfeld tem uma aproximação de amizade e, ao mesmo tempo, a familiaridade para a troca de idéias em física. (38) Creio que seja um documento que traz forte sua voz de dentro da física que praticava.

Université Libre de Bruxeles Bruxelles, le 5 avril 1949

Centre de Physique Nucléaire

50 Avenue F.D.Roosevelt

Cher Rosenfeld

Jusqu´a present je n´ai aucune nouvelle du Brésil. J´ai l´impression qu´ils n´aiment guère a me donner un nouveau congé mais qu´ils n´osent le refuser non plus.

Ici on a trouvé une très belle étoile a 44 branches, don’t 31 correspondant a des particules relativistes. Nous avons essaié de la discuter un peu mais ne sommes reussis a rien deduire de certain sur la nature de ces particules relativistes. Elles pourraient bien être de plusieurs espèces: protons, mesons et électrons. Il nous semble qu´au moins quelques unes devraient être des mesons pi, puisque ce sont des mesons qui interagissent avec les nucleons avec un couplage fort.

L´ouverture de la gerbe des particules relativistes est d´environ 80º. La particule primaire n´a pas de trace visible. Il s´agit probablement d´un neutron. Si l´on admet que la production est multiple, c´est a dire que les secondaires relativistes sont produits dans un seul choc, le du systeme de barycentre doit être de l´ordre de 0.75. Le neutron primaire aurait alors une energie cinétique de 2.5 · 109 eV. La distribuition angulaire des particules relativistes a été analysée soigneusement et est en bon accord avec l´hypotèse d´une distribuition a symétrie sphérique dans un système en mouvement par rapport a la plaque avec un de 0.75.

Si l´énergie du primaire est de l´ordre de celle que nous avons obtenu en supposant la création multiple, il faudrait admettre que la plus grand part des particules relativistes sont des électrons. Pour expliquer la créations de ses électrons il faudrait un mécanisme de type nouveau. La productions d´électrons par des photons accompagnant la création des mesons ou resultants de créations de mesons neutres aurait la probabilité assez petite, puisque il ne s´agirait d´une cascade mais plutot d´une conversion interne avec création de paires. On a pensé ici a la possibilité d´une disintegration de mesons neutres directement en paires d´électrons.

La possibilité de la production successive des secondaires n´a pas été encore examinée d´une façon detaillée. Dans ce cas l´énergie du primaire pourrait être plus élevée parce que l´ouverture serait detérminée par des secondaires crées dans les dernières collisions e correspondrait alors à une énergie inferieure a celle du primaire avant la création de secondaires. Il y a quand même la distribuition angulaire qui va três bien avec l´hypothèse de la création multiple.

S´il y a vraiment des mesons neutres qui se desintègrent avec émission de paires d´électrons l´on devrait trouver beaucoup d´étoiles avec deux particules relativistes ionizantes. Malheureusement nous n´avons pas assez d´étoiles pour pouvoir faire une statistique satisfaisante.

Saluts cordiaux

Mario Schenberg

Seguem –se três páginas com as imagens de estrelas de desintegrações detectadas em emulsões.

Mario Schenberg muito próximo a G. Occhialini

Connie Dilsworth e Giuseppe Occhialini, escreveram, em 1984, sobre Mario Schenberg em sua estadia na Universidade Livre de Bruxelas (39):

O grupo de emulsão nuclear do Centro de Física Nuclear de Bruxelas era um lugar muito especial para um teórico brasileiro. Mas Mario ajustou-se perfeitamente nele. Embora o grupo não fosse completamente internacional, era fortemente binacional, ítalo-belga... Mario Schenberg constituía naquela mistura mais um caráter exótico. Embora suas horas de trabalho fugissem do convencional e a leveza de seus passos no samba contrastassem com sua presença maciça, ele era visto como um dos elementos mais estabilizadores e de maior capacidade do grupo. Seu conselho era ponderado e, em física, seguro, resolvendo com certeira introvisão nossos problemas de captura de muons, dos jatos e dos jetines.

Ele levava muito a sério seus encargos como o teórico “da casa” e tinha o dom de traduzir os conceitos mais abstrusos da teoria em uma linguagem de física básica e utilizá-los na formação e orientação dos recém-vindos à Física de Partículas e dos Raios Cósmicos. ... Possuía, e certamente ainda possui, aquela qualidade fundamental para a coesão do grupo: era um verdadeiro amigo.”...

Depositada na Universidade de Milão existe documentação que exprime o sólido elo de confiança e solidariedade entre Mario Schenberg e o casal Occhialini - Dillsworth. (40) Connie Dilsworth em carta a Occhialini, ausente quando ela recebe visita de Mario Schenberg descreve seu desagrado pelo que considerava atitude de não reconhecimento pela direção do Laboratório, em seus primeiros anos lá: ... “He is throughly fed up with his position at the Centre, and ready to leave. … Anyway there is the position. Mario wanted to talk with you before taking action. … (41)

Esse Arquivo tem também, em relação a Mario Schenberg, interessante documentação sobre a repercussão, na Europa e nos Estados Unidos, de sua prisão (em São Paulo, 1964). Jean Meyer escreve de Saclay (42), em novembro de 1965 a Occhialini, então em Milão, sobre a prisão de Mario Schenberg. Transcrevo trecho:

... Par contre la situation personnelle de Mario Schenberg à São Paulo est plus sérieuse. Il est en effet l´objet de trois poursuites differéntes par la justice militaire (et non civile!). Les chefs d´accusacion sont: 1) subversion (sic) à la Faculté des Science de São Paulo, 2) subversion dans lês conferénces faites par lui à l´institut des sciences sociales, 3) son nom se trouve dans les carnets de L.C. Prestes. Remarque qu´en 18 mois d´instruction judicial rien n´a été prouvé contre lui, et il est clair que rien ne será jamais prouve de façon sérieuse . ... Je pense que s´il doit être incarcéré pendant um période plus longue, sa vie court un réel danger.... Une garantie raisonnable pour lui, serait constitué par um visa de sortie dans son passeport. ... Si toi ou tes collègues vous pouviez lui envoyer une lettre officielle invitant Mario pour quelques conferénce sur sés travaux à être faites le plus tot possible, je pense que vous l´aurez aider dans une très large mesure....”

Há, ainda, cartas sobre troca de informações entre físicos europeus e autoridades americanas e brasileiras. Carta ao General Castelo Branco da Federation of American Scientists, cujo presidente era o Professor Peter G. Bergmann, sobre a importância da liberdade de pensamento para os cientistas. Bergmann cita Ralph Schiller (assistente de David Bohm no Brasil) como um dos incentivadores dessa carta.

Mario Schenberg e Guido Beck

Em carta de 24 setembro 1950, de Bruxelas, para o Professor Guido Beck (43), então em Córdoba, Argentina, expressa a importância da estadia na Bélgica, que considerou essencial para seu amadurecimento como pesquisador em física. Sentimentos de proximidade e confiança estão expressos nessa longa carta, cheia de comentários sobre sua vida, seus interesses de pesquisa, sua viagem a Praga, seu relacionamento com intelectuais na Tchecoslovaquia daquela época. Segue a carta, quase na íntegra, por conter informações de interesse e também por mostrar sua proximidade ao professor Beck que deu grande contribuição ao ambiente da física brasileira, principalmente no Rio de Janeiro, onde viveu muitos anos.

Carta datilografada, 20 linhas por página, espaço duplo, quatro páginas, numeradas.

Bruxelas, 24 de setembro de 1950
Centre de Physique Nucléaire
Av. Roosevelt, 50
Bruxelles.

Caro Beck

Perdoe o meu longo e injustificado silêncio. Creio que foi, em parte, devido à falta de notícias importantes ou interessantes a lhe dar.

Desde meados de 1949 andei com a vida muito atrapalhada por causa das perseguições da Reitoria, que queria me expulsar da Universidade. Tive que voltar ao Brasil apenas para pedir uma licença. Só em janeiro deste ano consegui readquirir bastante calma de espírito para retomar a pesquisa. Andei mexendo um pouco com a equação de Dirac, procurando determinar uma fórmula bastante simples das funções de Green para aplicá-las a um cálculo mais rigoroso do efeito Lamb. O problema é muito difícil e nenhuma faz formas que encontrei é bastante simples. Voltarei mais tarde ao problema, que me interessa muito e me faz aprender muita coisa sobre a equação de Dirac.

Depois tive que deixar a equação de Dirac para me ocupar da teoria da ionização, para ajudar um rapaz que fazia sua tese. O resultado disso foi um trabalho que acaba de sair mimeografado e que publicarei mais tarde sob uma forma mais condensada. Você deverá recebê-lo dentro em breve. Tem recebido regularmente os boletins do Centre de Physique Nucléaire? Esse trabalho é um aperfeiçoamento das teorias de Frank, Tamm e Fermi sobre a ionização e a radiação de Cerenkov. Melhorei a parte matemática e estudei o mecanismo de emissão da radiação de Cerenkov. Tamm e Aage Bohr pensavam que a radiação de Cerenkov fosse uma parte da energia cedida aos elétrons do meio, irradiada posteriormente. Achei que a radiação era emitida pela partícula carregada em movimento. É curiosa a semelhança entre a teoria do efeito Cerenkov e a de elétron puntiforme. Vou estudar as modificações da teoria de Bethe e Bloch devidas à polarização do meio material.

Retomei agora o meu trabalho sobre a teoria das perturbações, começado em 1949. Achei uma fórmula nova para o calculo dos autovalores perturbados que não se baseia sobre um desenvolvimento em série de potências. Quero aplicar esse novo método à eletrodinâmica. Creio que não há efetivamente divergências na teoria dos campos eletromagnético e eletrônico. As que aparecem devem ser conseqüências de métodos matemáticos inadequados. Aliás, muita gente pensa assim.

O Leal Ferreira e a Palmira passaram as férias aqui. Ele começou um trabalho comigo sobre um formalismo em que as massas de repouso podem variar. Paulo estava muito fraco e avançou lentamente. Palmira trabalhou com Occhialini em placas fotográficas. Agora vão para Roma. Creio que aproveitaram bastante aqui em Bruxelas.

...

Estou muito apreensivo com a situação da Física brasileira. Em São Paulo continua o estado de crise do Departamento. Não sei se as coisas vão melhor no Rio. Acho que o Lattes fez muito mal em voltar tão cedo para o Brasil. Ele perdeu uma oportunidade incomparável deixando Berkeley. Não sei qual seja exatamente a situação atual no Rio. Parece-me porem que os planos de Lattes não eram realistas. Está se vendo que é muito difícil iniciar a pesquisa física sistemática em paises sul-americanos. Há as dificuldades do isolamento, do ambiente inadequado e da nossa mentalidade, imprópria para a ciência. Talvez a nossa mentalidade seja o maior obstáculo. Só agora começo a compreender bem qual deve ser a mentalidade de um homem de ciência. Contudo não perdi as esperanças, muito pelo contrário estou agora mais seguro do êxito, avaliando melhor as dificuldades a superar. Minha atitude no momento atual será criticada por muitos, mas sem razão. Se não tivesse saído do Brasil provavelmente teria me liquidado como físico. Quando voltar poderei fazer muito para encaminhar melhor as coisas. Isso será provavelmente em 1952.

As novidades científicas mais importantes são a confirmação da existência das partículas de massa 900, descobertas por Rochester e Butler, em 1947, e os dados sobre as colisões de nucleons. Anderson já observou algumas dezenas de desintegrações dessas partículas ( V particles) e agora Rochester e Butler já também observaram mais 10, no Pic du Midi. Parece que a desintegração dá um par de mesons pi, vida média da ordem de

10-10seg. Nas colisões de nucleons só intervem a onda S, até 100 milhões de volts. Para energias ainda mais elevadas, parece que se pode manter a hipótese de charge independence das forças introduzindo uma interação spin-orbita muito forte e variando como r -3 . (Pais e Case). Dos shell-models, o único aceitável é o de Goeppert-Mayer com coupling spin-órbita e níveis de oscilador harmônico. Não se compreende porque o potencial seria um poço parabólico. Ganha terreno a idéia de que as partículas de spin inteiro são complexas. Wentzel mostrou que se podia considerar os mesons pi como formados de dois mi, com um grande defeito de massa produzido pela self-energy resultante da possibilidade de se transformarem em pares de nucleons e anti-nucleons. Heisenberg apresentou um novo programa de teoria das partículas elementares, em que o campo é descrito por um spinor quantizado com regra de comutação regularizada, à maneira de Pauli e Villars. Segundo Heisenberg poderia haver vários estados estacionários correspondendo a partículas de spin inteiro ou semi-inteiro. Algumas dessas partículas teriam massa nula em virtude das self-energias negativas (fótons, etc.) . Dirac continua elaborando uma teoria estranhíssima, em que as transformações de gauge são associadas a mudanças de hiper-superfícies. Ele obtém uma hamiltoniana em que há termos dependendo de potências negativas da carga elétrica, o que explicaria os maus resultados obtidos com o desenvolvimento em séries de potências de e.

Estive na Tchecoslovaquia em junho. Fiquei deslumbrado com Praga. O país é muito lindo. A vida já está bastante confortável. Para os físicos a situação ainda é difícil porque têm poucos contatos com o mundo capitalista e nenhum com a U.R.S.S.. Lutam com muitas dificuldades para conseguir divisas para as revistas. Algumas já recebem, mas não todas. Gostei muito do professor de Física Teórica, Vaclav Votruba. É aluno de Wentzel.

Queria de lhe pedir um favor: o professor de espanhol, Kuchvalek, há dez anos não recebe revistas ou outras publicações de lingüística espanhola nem tem divisas para importá-las. Deve ser fácil de conseguir aí na Argentina coisas desse tipo. Se puder obter algumas e me mandar, ficar-lhe-ei muito grato. Naturalmente pagar-lhe-ei o que custarem. Apareceu uma revista de filologia hispânica dirigida por um refugiado republicano, creio que se chama Amado Alonso, que o Kuchvalek tem muito interesse em conhecer.

Quando vem à Europa? Não pode comprar dólares no mercado livre? No Brasil todos compram dólares no mercado livre, pelo dobro do preço oficial, para poder viajar. Mesmo assim a vida ainda não é mais cara do que no Brasil. A situação internacional está tensa, mas é pouco provável que haja guerra antes de 1952. Muita gente aqui pergunta por você. Ainda não encontrei o Pirenne, agora parece estar em Liége. Aqui na Bélgica o contato entre as diversas universidades é quase nulo.

Recebi a tradução das memórias do Einstein. Não agradeci aos tradutores porque não sei os seus endereços. Ficar-lhe-ia muito grato se o fizesse por mim.

Um grande abraço de sempre seu

Mario

Mario Schenberg e David Bohm

Em 1953 ao voltar da estadia de cinco anos na Bélgica, Mario Schenberg encontrou David Bohm, físico americano que esteve em São Paulo de 1952 a 1955. Bohm havia sido demitido da Universidade de Princeton por perseguições políticas que existiram nos Estados Unidos no período pós-guerra. Teve significativa interação com David Bohm, apresentando cada um, pensamento original sobre a natureza da teoria quântica. Bohm deu aulas e discutiu aqui em São Paulo suas idéias sobre fundamentos da mecânica quântica e publicou pesquisas com vários professores de São Paulo e do Rio de Janeiro. Com visão diferente da teoria quântica, em várias ocasiões ficou documentada a visão filosófica de Mario Schenberg e sua influência sobre Bohm. Além de fazê-lo conhecer e apreciar a dialética de Hegel discutiu ainda sobre teorias matemáticas no tratamento das bases da mecânica quântica. (44)

Personalidades muito diferentes interagiram bastante, como mostra David Peat em livro que fragmenta a estadia no Brasil em vários documentações, inclusive Bohm tendo a cautela de não revelar afinidades, em suas cartas a amigos nos Estados Unidos. Isso contribui para alimentar o preconceito de estudiosos americanos em avaliar sua estadia no Brasil. Além de vários trabalhos fundamentais publicados com Walter Schützer, Jaime Tiomno e Ralph Schiller, Bohm escreveu aqui seu livro Causality and Chance in Modern Physics. Em sua entrevista a Alberto da Rocha Barros (45), em Londres, em 1982, aponta a fecundidade de seu trabalho no Brasil.

Vemos como a vida de Mario Schenberg reflete as atividades culturais e políticas no país. No limiar da volta ao regime democrático, suas palavras resumem postura em todas as áreas que atuou. Em 1984, em meio ao discurso de agradecimento à homenagem, no Instituto de Física da USP, disse à platéia de estudantes e professores:

É preciso ter coragem para enfrentar as coisas difíceis e não procurar os caminhos fáceis. E só então é que realmente este efeito absurdo desses anos todos de opressão serão eliminados. ..... E como estou no fim de minha carreira, há um conselho que dou a vocês: não tenham medo, não só de levar pancada, mas também de expor suas idéias. Porque se tiverem medo, nunca poderão criar nada de original.” (46)

Mario Schenberg foi uma personalidade pública, um crítico de arte reconhecido, professor destacado, formador de pessoas, de ambientes e de laboratórios. A densidade da personalidade científica de Mario Schenberg que tivemos a oportunidade de usufruir, em conversas, aulas, seminários, debates, é difícil de ser reconstituída. Esperamos contribuir nesse sentido através da publicação dos seus trabalhos, que se destacam como um dos mais profícuos caminhos de expressão de sua inteligência e da generosidade de ação na incipiente ciência brasileira.

Faça o download do texto completo

Referências:

(26) e (27) Em “Mário Schenberg: Entre-Vistas,” Referência (11), acima, pg.75 e pg. 80, respectivamente.

(28) Em Pensando a Arte, Ed. Nova Stella, São Paulo, 1988, pg 83-85.

(29) Há cópias xerox de cartas a Luiz Freire de 1933, 1935, 1936 no Arquivo Luiz Freire, Departamento de Física Geral, IFUSP. Os originais estão com a família de Luiz Freire. As cartas aqui publicadas tiveram a ortografia atualizada.

(30) Em “Gleb Wataghin, Selected Papers”, Editores: Dobrigkeit, A. Turtelli e R.A. Sponchiado, Instituto de Física Gleb Wataghin, UNICAMP, 2000.

(31) Citado em Currículo Artístico, Referência (6), acima.

(32) Entrevista gravada concedida a Rogério Rosenfeld, 1989, então doutorando brasileiro na Universidade de Chicago, hoje Professor no Departamento de Física da UNESP, em São Paulo. Transcrição e tradução de Myriam Segre Rosenfeld, não publicada. Arquivo Mario Schenberg. Trecho editado aqui por AIH.

(33) “Mario Schenberg como Fotógrafo”, José Roberto Aguilar, em O Mundo de Mario Schenberg, Catálogo de Exposição na Casa das Rosas, São Paulo, s/d [1998], pgs. 46-51. Cópias ampliadas, doadas pela Casa das Rosas, são mantidas no Arquivo Mario Schenberg do Departamento de Física Geral, do Instituto de Física da USP. Três delas estão permanentemente expostas na sala de seminários do Departamento de Física Geral desse Instituto, Edifício Principal, Ala 1, Sala 204

(34) Ver Referência 6.

(35) R. Paul, Field Theoretical Methods in Chemical Physics, 1982 Departamento de Química, Universidade de Calgary, Canadá. Citações de Ricardo Ferreira em “Eletronegatividade e o potencial químico dos elétrons nas moléculas”, Referência (11) acima, “Perspectivas em Física Teórica” pgs. 457 , 459. Os trabalhos citados são: Application of Second Quantization Methods to the Classical Statistical Mechanics Il Nuovo Cimento, IX, 12:1139-1182, dez. 1952; X, 4: 419-472, abr. 1953 e A General Theory of the Second Quantization Methods Il Nuovo Cimento, X, 6: 697-744, jun. 1953.

(36) Paulo Sergio Macedo, trabalhou com o Professor Beck na Argentina, esteve em São Paulo por alguns anos, voltou ao Rio de Janeiro onde trabalhou vários anos. (Agradeço a Elly Silva pelo esclarecimento, 2008).

(37) Do Arquivo Niels Bohr, Copenhagen, Dinamarca. Agradeço a contribuição de Olival Freire

que trouxe a carta para o Arquivo Mario Schenberg.

(38) O original contem vários erros ortográficos irrelevantes, que foram corrigidos.

(39) Mario Schenberg: Entre-Vistas, Ref. (11) acima, pg. 103-104.

(40) Occhialini-Dilsworth Archive (Università degli Studi di Milano, Italy) Pasquale Tucci autorizou o envio dos documentos a respeito de Mario Schenberg. Agradeço a Leonardo Garibold (Research Fellow na Universidade de Milão) que gentilmente selecionou-os e organizou as referências. Além das referências abaixo há preciosa carta de Lattes a Occhialini e de Occhialini a Schenberg, em Occhialini Archive 7, 2, 1.

(41) Carta de Connie Dilsworth a Occhialini, cerca de 1950, Occhialini Archive 5. 1. 13. Em comunicação pessoal, contou-me Occhialini, em Paris, 1993, que Schenberg tinha divergências éticas e políticas com Cosyns, o diretor do Laboratório e dirigente do Partido Comunista Belga.

(42) Documentos sobre a prisão de Schenberg, 1965, Occhialini Archive 7. 28. 3.

Jean Meyer continuou com André Wataghin e George Schaheim a trabalhar em raios cósmicos, no Departamento de Física, até meados dos anos cinqüenta, quando o grupo de dissolveu.

Raph Schiller veio trabalhar com David Bohm no Brasil.

(43) Arquivo Guido Beck. CBPF, Rio de Janeiro. Agradeço Antonio Augusto Passos Videira por fazer a carta disponível.

(44) “Infinite Potential: The Life and Times of David Bohm”, F.David Peat, Addison Wesley Publishing Company, Inc., (Helix Books), 1996. Citações sobre Mario Schönberg nas pgs. 155-156, 157, 162, 182.

(45) Entrevista a A.L.da Rocha Barros, Londres, 1983. Em “Perspectivas em Física Teórica”, (Referência (10), acima) pg 47-61.

(46) “Em Perspectivas em Física Teórica”, Referência (10), acima, pgs. 43 e 45

Autor:

Amélia Império Hamburger

Publicado em: 3 Ago 2009
Atualizado em: 3 Ago 2009