Ciência ou pseudociência?

Publicado em: 6 Ago 2008
Atualizado em: 6 Ago 2008

O físico Carl Sagan em foto da Planetary Society / Fonte: http://pt.wikipedia.org/wiki/Imagem:Carl_Sagan_Planetary_Society.JPG

O físico Carl Sagan em foto da Planetary Society

Curas milagrosas, métodos de leitura ultra-rápidos, dietas infalíveis, riqueza sem esforço... Basta abrir o jornal, assistir à televisão, escutar o rádio, ou simplesmente acessar a caixa de correio eletrônico para ser bombardeado por esse tipo de promessa. Com uma roupagem científica: linguagem um pouco mais rebuscada, aparente comprovação experimental, depoimentos de “renomados” pesquisadores, utilização em grandes universidades etc, elas são casos típicos do que se costuma definir como “pseudociência”.

A definição de pseudociência é uma questão complexa e delicada, mas há muitas características comuns que podem ser utilizadas para tentar esboçar uma demarcação.

Em seu clássico livro O Mundo Assombrado por Demônios - A Ciência vista como uma Vela na Escuridão, o físico norte-americano Carl Sagan descreve um kit de detecção de mentiras ou bobagens, principalmente no que se refere a afirmações aparentemente científicas. De acordo com Sagan, há algumas ferramentas básicas que devem ser utilizadas para analisar essas informações e os argumentos que pretendem sustentá-las:

• Sempre que possível deve haver uma confirmação independente dos “fatos”;

• Deve-se estimular um debate substantivo sobre as evidências, do qual participarão notórios partidários de todos os pontos de vista;

• Os argumentos “de autoridade” têm pouca importância - As ‘autoridades’ cometeram erros no passado. Voltarão a cometê-los no futuro. Uma forma melhor de expressar essa idéia é talvez afirmar que em ciência não existem autoridades; quando muito há especialistas;

• Deve-se considerar mais de uma hipótese. Se alguma coisa deve ser explicada, é preciso pensar em todas as maneiras diferentes pelas quais poderia ser explicada. Então se deve pensar em formas de derrubar sistematicamente cada uma das alternativas. A hipótese que sobreviver a esta “seleção natural” tem maiores chances de ser a correta;

• Não se apegar demais à sua própria hipótese. Devem-se buscar razões para rejeitá-la. Se você não fizer isto, outros o farão;

• Quantificar sempre que possível. Aquilo que é vago e qualitativo é suscetível a muitas explicações;

• Se há uma cadeia de argumentos, todos os elos da cadeia devem ser válidos (inclusive a premissa) – não apenas a maioria deles;

• Deve-se sempre questionar se a hipótese pode ser, pelo menos em princípio, falseada. As proposições que não podem ser testadas ou falseadas não valem grande coisa. Devemos poder verificar as afirmativas propostas.

Um subgrupo da pseudociência é formado pelas chamadas “lendas urbanas”, como aquelas histórias mirabolantes sobre doenças provocadas por latinhas sujas ou roubo de órgãos para contrabando, que ouvimos em conversas informais ou lemos em correntes de correio eletrônico.

Um exemplo aconteceu em 1999, quando circulou na Internet uma série de mensagens alertando para o perigo iminente do uso de celulares em postos de gasolina, relatando o caso de supostas explosões – que na realidade foram posteriormente desmentidas pelas empresas.

Considerando as condições atuais dos postos de gasolina e as tecnologias dos celulares, a probabilidade de haver alguma explosão causada pelo uso desse tipo de aparelho é extremamente remota. O perigo relacionado com ondas eletromagnéticas é simplesmente inexistente. Com relação a eventuais faíscas, é interessante lembrar que todos os carros possuem baterias, e a possibilidade de que essas baterias soltem alguma faísca certamente é muitas vezes maior do que a probabilidade de que a faíscas provenientes do celular possam provocar algum dano.

Ainda assim, em 2003, a prefeitura de São Paulo regulamentou a Lei 13.440, que proíbe o uso dos telefones celulares em postos de combustíveis da cidade. Trata-se de uma lei sem fundamento técnico ou científico, provavelmente originada dos boatos que circularam na Internet.

Esse exemplo é descrito com mais detalhes no artigo “Ciência e pseudociência”, publicado no Vol. 9 nº1 da Revista Física na Escola. Assinado por Marcelo Knobel, do Instituto de Física da Unicamp, o texto apresenta uma tentativa de delimitação do que pode ser considerado pseudociência, além de discutir possíveis ações que os educadores podem realizar no sentido de transmitir e estimular o espírito crítico com relação a essas informações. Knobel também comenta um documento que tem gerado ampla polêmica mundial, relacionado com o chamado nível de aptidão, ou alfabetismo, científico e tecnológico.