Os cientistas no Brasil do século XIX:
“Mentalidades de primeira ordem, como Gomes de Souza e Otto de Alencar, quase nada produziram que se tenha incorporado à ciência, e isso porque foram espíritos inteiramente isolados, autodidatas em cujos escritos se sente a falta de uma orientação inicial.”
Sobre a validade das geometrias:
“Como construções ideais, todas as geometrias são igualmente verdadeiras. Nós temos, pois, a liberdade de escolher aquela que em cada ordem de fatos permita univocamente, e da maneira mais simples, traduzir os resultados das nossas medidas.”
A ciência pura e a natureza:
“Por mais sutil que venha a ser a nossa ciência pura, ela sempre encontrará uma fonte de inspiração no mundo sensível, cuja infinita riqueza ser-lhe-á impossível traduzir integralmente. Mas por mais complexo que seja esse mundo sensível, a nossa capacidade de abstração poderá sempre conceber modelos ideais, que os dados externos reproduzam apenas aproximadamente.
A concepção utilitária da ciência:
“Eu não aceito - e nunca aceitei - a concepção utilitária da ciência. Nunca me conformei com o modo de ver dos que a consideravam uma serva da técnica, destinada a fornecer-lhes receitas e regras de ação; muito pelo contrário, penso que essas regras e receitas são os subprodutos da ciência.”
Sobre o ensino universitário:
“Lamento que em nossa universidade, que de universidade pouco mais tem do que o nome, não exista um instituto de estudos científicos propriamente ditos, em torno do qual se formasse e desenvolvesse a cultura que nos falta, isto é, o gosto pela especulação desinteressada, amor da pesquisa original, e não apenas a que possuímos, superficial assimilação do que criam os povos mais adiantados.(...) Estou convencido, porém, de que só se aprende com segurança fazendo alguma coisa, não simplesmente ouvindo dizer como se faz; e de que só fazendo alguma coisa é que se sente a cada instante a necessidade imperiosa de possuir uma boa base teórica. Estou convencido da inutilidade de toda e qualquer reforma do ensino que não reforme, antes de mais nada, a maneira de ensinar e a de aprender. Criem-se ou suprimam-se cadeiras, modifique-se o processo dos concursos ou o dos exames, dê-se maior ou menor autonomia às escolas, invente-se um labirinto burocrático mais ou menos extravagante, acabe-se com a classe dos professores substitutos (que o público, a julgar pela disposição terminante da autorização legislativa, deve considerar como calamitosa para o ensino). Tudo isso com ou sem argumento de despesa. Será tudo em pura perda se não caminharmos para um regime verdadeiramente educativo, que dê ao estudante hábitos de trabalho, de ordem e de método, e a satisfação de ver a cada passo alguma coisa criada pelo seu esforço. Um regime em que mestres e discípulos estejam em permanente contato uns com os outros, nessa confiança recíproca que aquece os corações e excita as inteligências. Um regime, enfim, que nos liberte algum dia desse velho e nefasto absurdo que se chama o exame.”
“Não é mais possível falar em leis da natureza nem em princípios imutáveis - leis e princípios são instrumentos de aproximação, sujeitos a uma revisão constante. Não é mais possível crer que eles representem integralmente a realidade: ”... resta sempre, como uma ponta persistente, qualquer decimal não satisfeita que nos reconduz à inquietude e ao sentimento do inesgotável.” E então se desvanece o fantasma de um determinismo absoluto. Valéry poderia acrescentar aquilo que me parece o resultado mais perturbador da física contemporânea, dessa física dos quanta e das explicações estatísticas que substituíram a rígida ciência do século XIX: a possibilidade, que vem dissipar tantas antinomias, de abrir uma janela sobre a liberdade.”
A ciência e a arte:
“A obra de ciência não pode ser integralmente compreendida ...[quando] falta uma alma de artista.”
Publicado em: 30 Jul 2009
Atualizado em: 30 Jul 2009