Citações

Um exemplo do pensamento político-filosófico

Em 1943, Mario Schenberg escreveu “O Destino das Nações Unidas”, publicado na Revista Clima (23) , a convite dos editores Paulo Emílio Salles Gomes e Décio de Almeida Prado. Revela aí uma cultura filosófica ampla, posições políticas e valores humanistas que o acompanharam a vida inteira. A distinção que fazia entre atitudes fascistas e democráticas tinha uma compreensão profunda e mesmo constitutiva de sua personalidade.

São destacadas algumas de suas afirmações, por parecerem ser contraditórias com idéias de uma pessoa que, para alguns, foi vista como moldada por um partido político anti-religioso e sem espiritualidade:

Homens imbuídos de desprezo pela humanidade comum não podem estar organicamente ligados ao povo de seu país”;

... agentes que criaram a aristocracia fascista são de naturezas muito variadas e atuam sobre homens de tipos totalmente diversos. Líderes sindicais e comunistas, remanescentes de nobrezas feudais, capitães de indústrias e mesmo pensadores cristãos, todos tendem a adquirir a mentalidade do aristocrata nietzscheano-fascista ... O exame de sua evolução [especificamente de lideres fascistas originariamente socialistas] revela o modus agendi das forças fascistas que existem nos partidos socialistas e comunistas. Os dirigentes destas organizações adquirem muitas vezes mentalidade aristocrática bem pronunciada. ... Enquanto se mantiver poderosa a consciência de sua relação com as massas operárias, as tendências aristocráticas só aparecerão discretamente, mas se ela se debilitar haverá uma evolução gradual, conduzindo ao espírito do aristocrata fascista.”

... um dos artigos básicos do credo das elites fascistas é constituído pelo repúdio completo dos princípios cristãos. Talvez essa seja a raiz mais oculta e poderosa do anti-semitismo contemporâneo.”

É muito revelador de sua filosofia a defesa da espiritualidade, que teria sido perdida na passagem da “ organização medieval” da sociedade à “ secularização do intelecto e do espírito

.... “Da Índia emanam doutrinas de caráter profundamente espiritual que poderão agir fortemente sobre os Estados Unidos e talvez sobre a Rússia, repercutindo em todo o Ocidente. Princípios análogos aos de Gandhi foram pregados pelos Quakers e adotados por muitos americanos representativos... ...Tolstoi chegara igualmente à doutrina da Não violência.”

Schenberg destaca a necessária aproximação com a Natureza

O panteísmo provavelmente terá influência muito grande nas concepções religiosas do futuro. Não só nos pensadores mais profundos como Spinoza e Goethe, como na pintura de Corot e Cézanne, se percebe a aproximação crescente da Natureza, num sentido religioso. Não haveria possibilidades de Cristianismo com espírito panteísta?” Ressalto o espírito de comunidade: “ Na Revolução de Outubro, a Rússia libertou-se duma elite europeizada, de tendências individualistas. Triunfou assim o espírito da comunidade popular. ...

Sua atuação na Universidade e no Departamento de Física é um exemplo do indivíduo atuante na construção de seu entorno, de sua comunidade. Mas não se contentou em conhecer e atuar entre os seus pares. Ligou-se ao partido político que abrangia a cultura operária e o distanciamento de classe, aproximou-se, vivendo com eles experiências de conhecimento e participação de cunho popular. Além disso, aproximou-se sempre dos artistas cuja sensibilidade tocava as coisas do mundo em sintonia reveladora da natureza humana.

Nos anos de 1990 foram tomados depoimentos de antigos companheiros que tiveram interação com Mario Schenberg que revelam sua postura e visão política em variadas situações. Publicamos excerto de depoimento de Carlos Frydman, 5/set/91 (24) sobre esse tempo de convivência revelador de sua personalidade de respeito pelo homem simples.

...E o Mario Schenberg ouvia todas as coisas mais absurdas com uma atenção extraordinária. Depois eu vim compreender porque ele era capaz de assistir uma sessão de candomblé, de ler sobre as religiões, sobre os mitos, aceitar o atavismo, essa coisa toda. Só mais tarde eu vim compreender isso. Isto é, ele via os companheiros como criaturas humanas com todos os seus defeitos e com todas as suas qualidades. Até me lembro de um fato concreto: uma das vezes que fomos presos, estava junto um companheiro que depois teve um desequilíbrio mental, uma hora disse assim: “Amanhã nós vamos ser libertados”. Então perguntamos, “Como?, se não havia contato com ninguém lá fora?” Ele disse: “É, um pássaro quando vem e canta de determinada maneira é porque alguma coisa boa vai acontecer.” Todos riram, acharam aquilo uma coisa absurda, o único que não riu, que aceitou isso, foi o Mario Schenberg. E o mais interessante de tudo, o mais cômico de tudo é que no dia seguinte fomos libertados. Então essa coisa de sensibilidade humana de Mario Schenberg é o que mais me fascinou na criatura dele.”

Era um homem político, militante no sentido de cidadão atuante na formação do meio social ao seu redor que fazia amplo e diversificado. Tendo vivido em época de confrontos ideológicos, trinta anos sob restrições de pensamento e de atuação, sua pessoa histórica ficou marcada pela ausência prematura da Universidade, o que facilita os esquecimentos e as distorções de suas idéias e de suas ações que marcaram profundamente a física brasileira que se iniciava.

Coerente com idéias e vida é um depoimento, em 1986 (25):

Foi muito fecunda a influência do marxismo na cultura brasileira, onde ela se processou de um modo espontâneo, quando eram os próprios artistas, intelectuais, ou outros, que manifestavam certas posições porque pensavam daquela maneira. E não onde se tentou impor uma certa disciplina partidária. A ideologia só tem uma influência positiva quando o próprio artista pensa daquela maneira e, porque ele sente, expressa”.

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Referências:

(23) Mario Schenberg, “O Destino das Nações Unidas”, Revista Clima, N. 12, abril de 1943, págs. 8 a 53. Sobre a revista ver Heloisa Pontes, “Destinos mistos: os críticos do Grupo Clima em São Paulo (1940-1968)”: Companhia das Letras, 1998, pgs. 118-119.

(24) Depoimento no Projeto da Referência 5. Carlos Frydman, escritor e poeta, membro do Conselho da União Brasileira de Escritores.

(25) Citação em Marcelo Ridenti “Em Busca do Povo Brasileiro” Ed. Record, 2000 - p. 63 De depoimento a Antonio Albino Canelas Rubim, USP, 1986.

Autor:

Amélia Império Hamburger

Publicado em: 3 Ago 2009
Atualizado em: 3 Ago 2009

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