Obras

Publicações Científicas

Nesta reunião de trabalhos científicos, apresentamos circunstâncias da atuação de Mario Schenberg como pesquisador em física e matemática, nas raízes da física-matemática no Brasil. São referências indicativas, para serem pesquisadas e aprofundadas. Não é feita avaliação crítica em seu conteúdo, pois essa é tarefa de físicos especializados em seus temas de pesquisa.

Os trabalhos científicos de Mario Schenberg foram escritos em vários momentos de sua vida acadêmica. As publicações em revistas internacionais e nacionais datam de 1936 a 1978, e muitos dos temas guardam atualidade. Assina todos os artigos como Mario Schönberg. Publicou nas revistas internacionais de acordo com os contatos, institucionais e pessoais, nos seus trabalhos científicos do momento.

Os primeiros trabalhos, no Brasil, foram publicados em italiano, francês, inglês e português, em revistas européias, norte-americanas e brasileiras, principalmente Il Nuovo Cimento, The Physical Review e Anais da Academia Brasileira de Ciências. Os primeiros são trabalhos do início de carreira em que o jovem pesquisador com pouco mais de vinte anos, agradecia sugestões e idéias de Gleb Wataghin e Giuseppe Occhialini. Teve trabalhos apresentados às Academias de Ciências, na Itália (por T. Levi-Civita e G. Fubini), na França (por Louis De Broglie (Prêmio Nobel, 1929), e no Brasil (por Lélio Gama, M. Joppert, Oliveira e Castro, e Menezes de Oliveira). Publicou também na revista holandesa Physica.

Encontram-se artigos escritos na Itália, em Roma, de 1938 e 1939, no diálogo com Enrico Fermi (Prêmio Nobel, 1938), G. Bernardini, B. Ferretti, e U. Fano. Logo depois, em São Paulo e nos Estados Unidos, Mario Schenberg publicou com George Gamow, em Physical Rewiew, teoria que envolvia na formação estelar os recém descobertos neutrinos. Em Chicago, publicou com S. Chandrasekhar, (Prêmio Nobel, 1983; citação de depoimento de Chandrasekhar mais adiante), no Astrophysical Journal, publicação da Universidade de Chicago, sobre o limite alcançado pelo colapso estelar, outro trabalho fundamental na área de astrofísica. Realizados na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da Universidade de São Paulo estão trabalhos com Giuseppe Occhialini, sobre raios cósmicos, e com Abrahão de Moraes, em física de dielétricos, inspirado em discussões com Gross e Oliveira Castro, do Rio de Janeiro.

Depois de voltar dos Estados Unidos trabalhou com Walter Schützer e mais tarde com Schützer e César Lattes, em cálculos de fundamentos do eletromagnetismo. A série de artigos sobre as teorias clássica e quântica do elétron, que se iniciou com artigo com José Leite Lopes interpretando um trabalho de Dirac, são publicados como Letters (Notas curtas) e artigos no Physical Review. Publicou sobre o tema, em versões mais detalhadas, nos Anais da Academia Brasileira de Ciências.

Em 1942, participou do esforço de criação de revistas especializadas por área científica, patrocinadas pela Fundação Getúlio Vargas, as Summa Brasiliensis Mathematicae e Summa Brasiliensis Physicae. Publicou, nessas revistas, extensos artigos sobre a teoria clássica do elétron e sobre o formalismo Hamiltoniano na dinâmica relativística, respectivamente.

Há também vários trabalhos sobre funções matemáticas e suas potencialidades nas interpretações da física. Publicou na Revista de la Unión Argentina de Matemática, em 1947, longo artigo resultado de curso dado em Córdoba, Argentina, sobre funções de Green, traduzido para o espanhol por J. Balseiro e D. Canals Frau.

Nessa visita estabeleceu elos duradouros com os físicos argentinos. Em depoimento em Simpósio de 1990, no Instituto de Física, J. J. Giambiaggi (14) diz:

Mario Schenberg deu uma série de conferências que depois foram publicadas na Revista da União Argentina. Isso foi uma grande pena, e mais grave ainda tê-las publicado em espanhol, porque aquele trabalho realmente é excepcionalmente bom, cheio de idéias. Ele deu na Argentina, não só uma contribuição didática, mas também aquele trabalho deu uma contribuição original muito importante, pois introduziu, antes de qualquer pessoa, o delta positivo e o delta negativo, que posteriormente foram introduzidos por Schwinger. Todo mundo fala dos delta de Schwinger. Mas não são de Schwinger, são de Schenberg, estritamente falando.”

De volta à Europa, registram-se inicialmente os trabalhos com a equipe do “Centre de Physique Nucléaire” da Universidade de Bruxelas, onde Schenberg atuou como físico teórico, colaborando na interpretação de experiências sobre raios cósmicos e interação da radiação com a matéria.

Na estadia na Bélgica, seus artigos voltam às revistas européias, associados aos membros do laboratório do Centre de Physique Nucléaire, ou em trabalhos próprios. Nos Proceedings of the Physical Society (comunicação apresentada por P.M.S. Blackett, Nobel 1948 ); no Bulletin du Centre de Recherches Nucléaires, Université de Bruxelles, e no Il Nuovo Cimento. No Il Nuovo Cimento, realizou importantes publicações em temas de sua própria pesquisa, principalmente em Mecânica Quântica, Segunda Quantização e Mecânica Estatística. Em entrevistas nos anos de 1980, considerou seu trabalho em mecânica estatística clássica o que mais gostava em sua obra (15).

De volta ao Brasil, a partir de outubro de 1953, volta a assinar os seus artigos na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da Universidade de São Paulo, importantes trabalhos sobre métodos e teorias matemáticas e os fundamentos matemáticos da Mecânica Quântica. De dezembro de 1957 a dezembro de 1958 publica nos Anais da Academia, em cinco partes, longo trabalho sobre mecânica quântica e geometria. Logo depois escreve artigos com jovens assistentes, sobre teoria das distribuições com Carmen L. R. Braga e sobre álgebras de Clifford com Alberto L. da Rocha Barros.

Publicou no primeiro número da Revista Brasileira de Física, em 1971, e em 1977, seus últimos artigos sobre uma unificação entre o Eletromagnetismo e Gravitação e a relação fundamental entre Causalidade e Relatividade (16).

Contribuiu com artigos característicos de sua visão teórica e epistemológica, para publicações em homenagem a Max Planck, em 1958, na companhia de grandes nomes da física, com as idéias sobre a geometria e a mecânica quântica. Em homenagem a Guido Beck, em 1973, escreveu uma apresentação em forma de sessenta e três teoremas sobre os conceitos tempo e massa desenvolvidos na mecânica e na relatividade.

Além de artigos em revistas científicas, há Atas de reuniões internacionais em que são publicadas intervenções de Mario Schenberg. Participou de discussões e apresentou idéias e trabalhos em conferências significativas pela presença dos melhores físicos. O volume Proceedings da Conferência de Kiev, de 1958, na União Soviética, é um documento de interesse histórico, pelo formato, pelo conteúdo em física e pelo momento: plena guerra fria, uma confraternização entre cientistas de paises em confronto político, Estados Unidos e União Soviética. Schenberg apresenta, em debate publicado, uma regra baseada em interpretação fenomenológica, para a classificação de todas as partículas elementares conhecidas.

Em Kyoto, em 1965, participou de conferência em homenagem aos trinta anos dos mesons de Hideki Yukawa. Essa conferência é, também, documento excepcional sobre a física da época e discussões entre os pares da linha de frente. Schenberg apresenta trabalho sobre a natureza geométrica do isospin e sua relação com a carga do elétron. Mantem discussão com C.N.Yang (Nobel) sobre a natureza de sua inspiração científica – se estética, insinuava Yang, se fenomenológica, assegurava Schenberg. Vai se referir a esse trabalho em seus próximos artigos sobre as álgebras geométricas, a significar suas interpretações fenomenológicas, por exemplo, a geometrização dos conceitos de carga e seu campo.

Esses são exemplos da prontidão para atacar problemas de forma original e visão própria, e uma ousadia de jogar a público idéias em desenvolvimento.

Sua colaboração com físicos japoneses no estudo das radiações cósmicas é mencionada por Lattes (17). O artigo Observation of extremely-high-energy nuclear interactions with an emulsion chamber, está publicado nos Proceedings da Conferencia Internacional de Raios Cósmicos de junho de 1967, em Calgary, Canadá, no Canadian Journal of Physics, assinado pela Colaboração Brasil-Japão. Seu nome consta da equipe brasileira, e é citado na literatura.

Em seu curriculum vitae anexo à defesa escrita por seu advogado, em processo que corria na justiça militar (18) são citados vários artigos como “a serem enviados brevemente aos Anais da Academia de Ciências”. O artigo Algebraic Structures of Finite Sets, de 1964, reproduzido nesta coletânea, foi apresentado por Artibano Micali e A.L. da Rocha Barros em publicação de Workshop sobre Álgebras de Clifford, em Montpellier, França, 1989 (19). Os outros artigos mencionados no documento de defesa, Álgebras of the line geometry (I, II, III) não foram encontrados.

Escreveu sobre seus temas científicos prediletos em revistas dirigidas a público mais amplo da comunidade universitária e em geral. Publicou três trabalhos que seguem, de forma clara, a tradição de divulgação do pensamento científico dos pioneiros, professores de física das escolas de engenharia: na Revista Polytechnica, em 1934, quando ainda aluno da Escola; no primeiro número da revista do Grêmio da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras, Filosofia, Ciências e Letras, em 1936; e ainda nessa revista, em 1940. Estão no Volume III desta coleção. Mais tarde, outros artigos foram publicados na revista Ciência e Cultura, da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência, SBPC, inclusive sobre energia e educação.

Em 1985, Schenberg foi convidado para participar de homenagem ao centenário de nascimento de Niels Bohr, em Mesa Redonda organizada pela UNESCO, em Paris. Apresentou Niels Bohr and the Twentieth Century, que não foi publicado, pelo que pudemos verificar. O texto, que se encontra no Arquivo Mario Schenberg, oferece um pensamento claro sobre a complementaridade de Bohr e foi incluído nesta coletânea.

A tese que defendeu em concurso para a cátedra de Mecânica Racional e Celeste e Superior, na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da USP, em 1944, Princípios da Mecânica, é mencionada por Abrahão de Moraes e Paulo Saraiva de Toledo em artigo de 1954, sobre as pesquisas no Departamento de Física (20).

Em seus estudos sobre os princípios da mecânica, que constituíram o tema de sua tese para o brilhante concurso que prestou na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da Universidade de São Paulo, apresentou Mario Schenberg um considerável número de considerações originais, introduzindo já na mecânica clássica conceitos ligados à teoria dos quanta, e mostrando a interdependência de certos princípios da mecânica admitidos tácita ou explicitamente.”

Mario Schenberg se destacou também pelas atividades em outras áreas: o ensino, a filosofia e a história da ciência, a política científica, a política ideológica e partidária, a arte e a crítica de arte. Sua participação foi sempre marcada pela dedicação aos indivíduos e ao coletivo, original nas idéias, clara em seus objetivos e seguras de valores humanistas. Ao mesmo tempo as ações eram ajustadas aos limites de uma realidade que descortinava com perspicácia e visão ampla e otimista.

Formação de Pesquisadores

Mario Schenberg orientou pesquisas, em São Paulo, de alguns jovens físicos, que se destacaram como pesquisadores e também fundaram instituições e programas de pesquisas: José Leite Lopes, Jayme Tiomno e Walter Schützer, que, depois de trabalharem com Schenberg, foram fazer com sucesso, seus doutoramentos em Princeton, com os renomados cientistas M. Jauch, W. Pauli e J. Wheeler. Trabalhou e publicou também com Abrahão de Moraes, Cesar Lattes e Paulo Leal Ferreira. Os trabalhos conjuntos constam do Volume I. O artigo com Tiomno não foi publicado e consta do Memorial de concurso para o Departamento de Física, em 1967, mas não está disponível na Faculdade de Filosofia da Universidade de São Paulo. Sobre esse artigo Abrahão de Moraes e Paulo Saraiva de Toledo escrevem em 1954 (21):

O professor Tiomno ... durante o tempo em que foi assistente em nossa Faculdade, trabalhou com o professor Schenberg na teoria da relatividade, procurando uma explicação nova, baseada na teoria da relatividade restrita, dos três efeitos (avanço do perihélio de mercúrio, deflexão da luz por um campo gravitacional e deslocamento para o vermelho das raias espectrais), efeitos estes antes só explicados pela teoria da relatividade geral.”

Paulo Leal Ferreira estagiou por quatro meses na Universidade Livre de Bruxelas quando trabalhou sob a orientação de Mario Schenberg. (22) Mais tarde, com outros jovens do Departamento, Carmen Lys Ribeiro Braga e Alberto Luiz da Rocha Barros, publicou artigos matemáticos. Através de seminários e conversas tiveram forte ligação com seu pensamento Jean Meyer, André Swieca e Newton Bernardes.

Suas aulas eram marcantes, pelo teor original, pela forma como compreendia a física em seu embricamento constitutivo com a matemática. Assim formou também muitos estudantes.

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Referências:

(14) J.J. Giambiagi, Intervenção no Simpósio em Homenagem a Mario Schenberg organizado pelo Diretor do Instituto de Física da Universidade de São Paulo, Professor José Roberto Leite, Novembro de 1990. Não publicado. Adicionado ao Arquivo Mario Schenberg, Departamento de Física Geral, IFUSP.

(15) Revista Trans/ Form/ Ação, 1980, Departamento de Filosofia, Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Assis; Ciência Hoje, vol 3, no. 13, 1984, entrevista a Amélia Império Hamburger.

(16) Artigos comentados por Henrique Fleming O último trabalho de Mário Schenberg , Revista USP, São Paulo, 50, 34-38, jun./ag. 2001, ou em Rev. Bras. Ens. Fís. 23, 4. 487-469, dez. 2001.

(17) César Lattes, em “Mario Schenberg - Entre-Vistas”, Gita K. Guinsburg e José Luiz Goldfarb (Org.), Instituto de Física/USP e Editora Perspectiva, 1984, pg. 135-136 .

(18) Defesa de Mario Schenberg, por Alberto da Rocha Barros, Advogado. [1964] Cópia no Arquivo Mario Schenberg, Departamento de Física Geral, IFUSP.

(19) Trabalho publicado em Clifford Álgebras and their Application in Mathematical Physics Ed. A. Micali, R. Boudet and J. Helmstetter, Kluwer Academic Publishers, 1992, pg. 505-518. Fundamental Theories of Physics, Editor A. Van Der Merwe, (U. of Denver, USA.) Vol. 47.

(20) Abrahão de Moraes e Paulo Saraiva de Toledo, O Desenvolvimento da Física em São Paulo, em “Ciência: um salto para o futuro: a pesquisa em São Paulo e a busca de padrões internacionais para as atividades científicas” - Jornal “O Estado de São Paulo”, 1954. Ver também S. Schwartzman, na Ref. (2), acima.

(21) Referência acima.

(22) Informação em carta de Mario Schenberg a Abrahão de Moraes, mais adiante nesta apresentação.

Autor:

Amélia Império Hamburger

Publicado em: 3 Ago 2009
Atualizado em: 4 Dez 2009

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